domingo, 6 de maio de 2007

Primeira parte do artigo de agrícola

A agricultura e suas especificidades



Com o desenvolvimento dos estudos econômicos acerca da sociedade capitalista, observa-se que ela se organiza de forma tal que o objetivo final do capitalista é valorizar seu capital investido. Em outras palavras, o capitalista só efetua um investimento caso ele tenha a perspectiva de receber um ganho adicional em relação ao capital aplicado – o lucro.

Entretanto, devemos também considerar o preço de produção de uma mercadoria: o custo. Segundo Graziano (1981), o custo é o preço dos itens que são efetivamente consumidos de acordo com o processo de produção, tais como matéria-prima, salários e desgaste de máquinas.

No momento em que se atinge certo grau de desenvolvimento, há uma concorrência entre os capitais empregados e, assim, há a formação de uma taxa geral de lucro. Considerando o lucro e os custos de produção, chegamos ao custo médio de produção de cada mercadoria. A média entre os vários preços de produção individuais de uma mercadoria resulta no seu preço de mercado. Porém, é importante termos em mente que mesmo que esse preço gravite em torno dos preços de produção há a possibilidade de uma diferenciação entre os diversos produtores.

No caso da agricultura, há a possibilidade de algum produtor usufruir de condições mais favoráveis do que outros: solos mais férteis, máquinas mais aperfeiçoadas. Assim, esses produtores privilegiados poderão ter um preço de produção inferior, o que acaba gerando um sobrelucro. Normalmente, em um mercado em que há um sobrelucro, a tendência é que capitais de outros ramos busquem reproduzir essas condições favoráveis e, dessa forma, façam com que o privilégio desapareça, voltando ao lucro médio. Porém, observa-se que, na agricultura, há uma barreira que impede o deslocamento de outros capitais, tornando o sobrelucro permanente. Essa barreira é constituída pela propriedade privada da terra que, dessa forma, concede o monopólio desse meio de produção.

Diante disso, Graziano (1981) ressalta que, na teoria da renda da terra de Marx, o progresso técnico representa uma maneira de o capital superar a barreira representada pela propriedade fundiária. O capital tem no progresso técnico a chave do processo de subordinação da terra e, por extensão, da própria Natureza. Assim, é possível uma intensificação do trabalho, através do uso de máquinas, fertilizantes, canais de irrigação e de drenagem, aumentando a produtividade do trabalho. Com o aumento da tecnologia, passa-se a não depender mais das condições naturais da produção agrícola. O capital controla e desperta as forças da Natureza artificialmente fazendo inexistir a diferença antes existente entre as terras mais favoráveis em relação às outras e, assim, diminuindo os privilégios desses produtores. Além disso, o progresso técnico é o meio do capital se contrapor à tendência declinante da taxa de lucro da terra.

Entretanto, devemos considerar que, diferentemente da maioria dos ramos industriais, existem várias dificuldades presentes no setor agrícola, representando barreiras para o desenvolvimento do capitalismo. Além das barreiras causadas pela propriedade privada da terra, ainda há o fato de que dificilmente se consegue isolar as forças da Natureza. Elas afetam o desempenho da produção agrícola, mesmo nos países capitalistas mais desenvolvidos. Outro ponto importante é a desvantagem em relação ao tempo de rotação do capital adiantado, que nada mais é do que o tempo de produção adicionado do tempo de circulação. Por esse motivo há incentivos para o desenvolvimento do processo de quimificação, uma vez que ele permite reduzir o período de circulação do capital, adiantando a produção. Da mesma forma atuam as variedades geneticamente melhoradas. Com esses avanços, é possível se obter uma produção quase contínua ao longo do ano agrícola, desrespeitando as épocas tradicionais de plantio e colheita.

Com base no que foi discutido anteriormente, podemos ver que existem alguns eixos tecnológicos que acompanham o progresso na agricultura de acordo com o modo capitalista de produção: as inovações mecânicas, físicas, químicas e as biológicas.

Segundo Graziano (1981), as inovações mecânicas afetam a intensidade e o ritmo da jornada de trabalho. Já as inovações físico-químicas modificam as condições naturais do solo, elevando a produtividade do trabalho aplicado a esse meio de produção básico. Finalmente, as inovações biológicas afetam principalmente a velocidade de rotação do capital adiantado no processo produtivo, através da redução do período de produção e da potenciação dos efeitos das inovações mecânicas e físico-químicas. Obviamente, devemos considerar que existem outros fatores capazes de diminuir o período de circulação, por exemplo, alterações nos meios de transporte e nos processos de armazenagem.

Analisando a forma como esses eixos tecnológicos afetam a agricultura, vemos como a mecanização reduz o tempo de trabalho necessário a uma determinada atividade, aumentando a intensidade e o ritmo de trabalho. Alteração essa muito semelhante à ocorrida no processo industrial. Porém, a mecanização não é capaz de alterar o período necessário para a produção.

No caso dos pesticidas, inseticidas e pesticidas, há uma redução nas perdas naturais, aumentando, assim, a produtividade. Dessa forma, é notável a diminuição do efeito dos ataques de pragas e doenças e da competição das ervas daninhas. A adubação, orgânica ou inorgânica, permite que a mesma quantidade de trabalho aplicada no solo resulte num maior volume de produção.

As inovações físicas, diferentes combinações de espaçamento, plantio em nível, drenagem e irrigação, rotação de cultivos e outras práticas, destinam-se a melhorar ou preservar as condições naturais de um determinado terreno.

Por último, as inovações biológicas, nada mais são do que seres fabricados pelo capital, eles reproduzem artificialmente a Natureza de acordo com seus interesses. Segundo Graziano (1981), as inovações biológicas colocam a Natureza a serviço do capital, possibilitando a transformação da agricultura num ramo da indústria. Elas não apenas viabilizam, mas, sobretudo, potenciam e aceleram os efeitos do progresso técnico. Ou seja, as inovações químicas, físicas e mecânicas, quando associadas às inovações biológicas, têm um horizonte muito mais amplo de aplicação na agricultura capitalista.

É importante salientarmos a incapacidade do capital em transformar o sistema agroalimentício como um todo unificado. Na produção artesanal, a mecanização transformou esse processo de produção, reorganizando para a divisão social do trabalho e culminando com o surgimento da indústria moderna. Já na agricultura, a mecanização não conseguiu provocar tal transformação. Ela concentrou-se no processo de trabalho e nas propriedades químicas do solo.

A primeira apropriação real ocorreu a partir do desenvolvimento das técnicas de hibridização de safra.

Em seu artigo, Goodman, Sorj e Wilkison (1990), falam que a mecanização da produção dos pequenos grãos nos Estados Unidos no século XIX fornece uma boa ilustração de algumas características gerais de apropriacionismo industrial e da expansão da agroindústria. Ao aplicar novas tecnologias a segmentos discretos do processo de trabalho rural, os capitais industriais estabeleceram novos setores de acumulação. Essa setorialização da produção rural estabeleceu uma seqüência de processos diferentes de produção industrial, subordinados aos diferentes capitais agroindustriais.

Continua...

2 comentários:

Ricardo Agostini Martini disse...

Ah, velha e boa cadeira de Economia Agrícola com o De Bem! Nem os textos mudaram!

Anônimo disse...

DEZ!!!!