Ciclos
Retirado do antigo blog - postado em 4 de julho de 2006.
O percurso para o trabalho é longo. Longo e deprimente. Ela observa atentamente cada detalhe - sempre adorou cuidar os detalhes - parece que cada observação a empobrece a esperança e a alma. Em meio a tudo, tão imundo, tão injusto, ela se questiona se ainda consegue alimentar esperanças. "Talvez não nesse mundo imundo". Ela se recorda da frase "talvez seja possível plantar vermelhos morangos em canteiros de cimento". Mas agora, ela vê que até conseguiria plantar, porém, há muito mais do que o cimento. Poderão seus vermelhos morangos sobreviver a tanto podre? Mas seus morangos são tão pouco. Seriam eles inúteis? Parece que fomos vencidos "companheiro", parece que já não existe causa, somos apenas "sobreviventes": sobreviventes-atados.
Recordou-se daquele livro, negro livro. Ah, ela tinha tanta esperança. Lembrou-se que já quis mudar o mundo. Já o quis compreender. Já quis saber de tudo. Tudo sobre tudo. Ler todos os livros existentes, conhecer assuntos diversos. Também já quis casar. Encontrar o príncipe encantado, ter filhos. Depois repudiou a tudo isso. Quis morrer só no meio do campo. Desacreditou em príncipe, jogou toda a culpa nos malditos hollywoodianos. Então tornou a crer. Novamente alimenta vontade de casar, ter filhos... Começa a se questionar sobre o fato da vida ser um eterno ciclo. Onde apenas mudam os lugares e as pessoas.
Então, se dessa forma, ela poderia ter inúmeras segundas chances? Mas como identificaria seus ciclos?
Ela está chegando no trabalho, os pensamentos terão de esperar, porque agora ela simplesmente terá que inercialmente "trabalhar".
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