terça-feira, 24 de março de 2020

Memórias de um auto-isolamento

"É verdade que escrever de vez em quando me acalma, será por isso que há tanta correspondência de condenados à morte, quem sabe lá."

Liliana Chorando - Cortázar

"Um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver sua vida como se a narrasse. Mas é preciso escolher: viver ou narrar."

A Náusea - Sartre


Em primeira pessoa, porque já não faz sentido o distanciamento do narrador. A epígrafe já esteve em posts de outrora, mas, como a vida é esse eterno ir e vir, eterno ciclo, é coerente que reapareçam. Registro aqui os pensamentos, primeiro, para acalmar a alma, segundo, para documentar os sentimentos do momento, terceiro, porque ao reler os posts de momentos semelhantes, vividos anteriormente, vejo que toda aquela dor e intensidade de sentimentos hoje já não existem mais - é só uma lembrança - e todo aquele peso ficou mais leve com o tempo. Escrevo para manter viva essa esperança de que vai passar, de que amanhã tudo isso vai ser uma lembrança e já não vai doer tanto, de que minha alma vai continuar, de que a vida vai continuar. O tempo e os ciclos nos presenteiam com isso. Os ciclos podem ser semelhantes, mas eu, novamente passando por eles, não sou a mesma. Com sorte terei aprendido com os anteriores, terei amadurecido e aprendido a dar o peso correto às coisas. Serei capaz de incorporar essa insustentável leveza e serenidade a essa fase, tentarei preocupar menos com o futuro - que nada adiantará nesse momento - e apreciar todos "pequenos milagres" que apercebem o dia-a-dia. Esperança de que vai passar. Um dia de cada vez. De que a vida continua. De que certamente não sairei a mesma disso tudo. De que daqui há alguns anos estarei relendo esse post e tudo isso será só uma lembrança. De que o coração continua!

2 comentários:

Anônimo disse...

Guria...anos atrás lamentavas que não tivestes esperança...que nunca havia sentido ela. De lá para cá percebeu que a conheces...que ela vive profundamente em você. Nesse período talvez seja onde você finalmente fez as pazes com ela. Pazes com a sua esperança na vida. Mas Guria... será que esse momento, único na sua vida, não mostra que não existem ciclos e repetições? A vida é uma eterna caixa de surpresas...uma excitante aventura eterna. Aventura de fatos...aventura de sentimentos... aventura de autoconhecimento. Nada se repete no ciclo da natureza...o sol que brilha hoje não é o mesmo de ontem, seja pela temperatura do mesmo diferente ou pelo tempo de vida menor do sol. Até às estações do tempo já não são as mesmas ...imagine nós. A repetição mora em nós, em como vemos a vida. Nada é igual...nada se repete...somente nós. A esperança quebra isso, é o alimento crucial para sentir a vida. Alimento crucial para lidar com a aventura que é viver a vida. Você com certeza não será a mesma, mas por que hoje você sabe o doce sabor da esperança. Só a vida e a morte se repetem no mundo...agora o restante tá tudo em aberto. E olha... esperança consegue enganar a morte diversas vezes. Seja a esperança que vive em você...

Amy Mizuno disse...

A gente se repete? Discordo totalmente! Já diria Heráclito. Fico surpresa com alguém ainda ler esse blog, mas no bom sentido.