Manuscritos de um primeiro semestre
“Estou só, em meio a essas vozes alegres e sensatas. Todos esses sujeitos passam o tempo todo se explicando, reconhecendo com satisfação que têm as mesmas opiniões. Deus meu, que importância dão a pensar todos juntos as mesmas coisas!”
Jean-Paul Sartre, A Náusea.
Escritos encontrados em um caderno do primeiro semestre. Perdoai, leitor.
Iniciada a viagem, com os já esperados atrasos. Noite em que conheci o Teatro São Pedro, com direito a aquele velho fascínio de um primeiro contato com um lugar. Lembro-me da primeira imagem que tive da Avenida João Pessoa. Imensa. Uma estrutura totalmente diferente. As luzes, o relevo e as encruzilhadas das ruas me deixavam transtornada.
O ônibus está parado, pela segunda vez. Sempre há uma maldita peça que resolve intervir. Alheia aos que dormem, observo os pontos de tricô. Até nossos meios de bloquear o frio são resultado de uma atividade repetitiva. Há quem sinta prazer em ser metódico, apreciando cada ponto realizado, igual ao anterior, idêntico ao próximo que virá. Entretanto, se atenciosamente analisados, nenhum ponto é igual ao outro. Pobre massa que já nasce fadada a seguir um padrão. Concepções prontas, simplesmente aceitas sem nenhum tipo de questionamento. Aceitam, porque refletir é discordar daquilo que lhes foi imposto. Poucos são os que se mobilizam para romper com suas restrições morais. Pontos de tricô. Iguais aos que vieram, moldes para os que virão.
Viagens sempre incitam esse misto de nostalgia-revolta-reflexão. Goiânia está longe, mas quem precisa chegar ao objetivo sem gozar os prazeres do durante?
Um comentário:
"Goiânia está longe" tu já morou lá? Ou Caxias mudou de nome?
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